O paradoxo da justiça digital: uma análise longitudinal da correlação entre eletronização do acervo e produtividade nos Tribunais Estaduais brasileiros

Autores

  • José Mário Wanderley Gomes Neto Universidade Católica de Pernambuco

Palavras-chave:

Jurimetria, Processo Eletrônico, Produtividade Judicial, Gestão Judiciária, Paradoxo de Solow

Resumo

O presente estudo investiga empiricamente a premissa de que a digitalização processual resulta invariavelmente em ganhos de produtividade jurisdicional. Utilizando dados longitudinais do "Justiça em Números" (CNJ) referentes aos Tribunais de Justiça Estaduais, testou-se a associação entre a taxa de eletronização do acervo e o Índice de Produtividade dos Magistrados (IPM) do 1º Grau. Os resultados revelam uma correlação geral negativa fraca (r = -0,19), desafiando o senso comum de eficiência tecnológica automática. A análise segregada demonstra profunda heterogeneidade: enquanto cortes como o TJMT apresentam forte correlação positiva (r = 0,93), outras como o TJPA apresentam correlação negativa moderada (r = -0,48). Discutem-se hipóteses de curva de aprendizagem e demanda induzida, concluindo-se que a tecnologia atua como um amplificador de modelos de gestão, não como solução isolada.

Biografia do Autor

José Mário Wanderley Gomes Neto, Universidade Católica de Pernambuco

Doutor em Ciência Política e Mestre em Direito Público pela UFPE. Professor no PPGD e no PPGDI da Universidade Católica de Pernambuco. Advogado. 

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Publicado

2026-04-07

Como Citar

Gomes Neto, J. M. W. (2026). O paradoxo da justiça digital: uma análise longitudinal da correlação entre eletronização do acervo e produtividade nos Tribunais Estaduais brasileiros. Revista Jurídica Da FA7, 22(1). Recuperado de https://periodicos.uni7.edu.br/index.php/revistajuridica/article/view/1849