Advogar é também cuidar? Advocacia em casos de violência no Brasil a partir da experiência da Clínica de Atenção à Violência

Autores

  • Luanna Tomaz Universidade Federal do Pará (UFPA) https://orcid.org/0000-0002-8385-8859
  • Emilli Mailly Miranda de Aquino Universidade Federal do Pará
  • Manoel Vitor Sousa Cavalcante Universidade Federal do Pará

Palavras-chave:

Cuidado, Advocacia, Clínicas Jurídicas, Ensino Jurídico, Violência

Resumo

Este artigo discute em que medida a advocacia pode ser compreendida como prática de cuidado na atuação com vítimas de violência, a partir da experiência da Clínica de Atenção à Violência (CAV/UFPA), na região Norte do Brasil. Partimos da recentíssima incorporação do cuidado como direito — afirmada pela Política Nacional de Cuidados, pelo Plano Nacional de Cuidados e pelo Parecer Consultivo n.º 31/2025 da Corte Interamericana de Direitos Humanos — para tensionar o modo como a advocacia é tradicionalmente ensinada e exercida. Metodologicamente, adotamos uma abordagem feminista ancorada na ética do cuidado, combinando análise documental (Estatuto da OAB, Código de Ética, marcos normativos sobre cuidado) e entrevistas semiestruturadas com cinco profissionais da CAV. A análise qualitativa das entrevistas indica que, na prática clínica, o cuidado não é acessório nem sinônimo de afeto privado, mas um eixo organizador da atuação jurídica. Identificamos cinco dimensões interdependentes do cuidado na advocacia: (i) ética de reconhecimento do outro, centrada em escuta qualificada e recusa da desumanização; (ii) tecnologia de trabalho jurídico, que inclui triagem sensível, acompanhamento de casos e prevenção da revitimização; (iii) sustentação psíquica de quem cuida; (iv) prática coletiva e institucional, ancorada em arranjos multiprofissionais; e (v) trabalho político, racializado e historicamente desvalorizado. Defendemos que assumir o cuidado como parte constitutiva da advocacia em contextos de violência implica reconhecer a defesa jurídica como também produção de proteção, segurança subjetiva e dignidade, demandando formação específica e rearranjos institucionais.

Biografia do Autor

Luanna Tomaz, Universidade Federal do Pará (UFPA)

Doutora em Direito, Justiça e Cidadania no Séc. XXI pela Universidade de Coimbra - Portugal. Pós-doutora em Direito na Puc-Rio. Professora da Faculdade de Direito, do Programa de Pós-Graduação de Direito da UFPA e do Programa de Pós-Graduação em Direito e Desenvolvimento na Amazônia (PPGDDA). Coordena o Grupo de Estudos em Direito Penal e Democracia (UFPA) e a Clínica de Atenção à Violência (CAV/UFPA).

Emilli Mailly Miranda de Aquino, Universidade Federal do Pará

Graduanda em direito na Universidade Federal do Pará.

Manoel Vitor Sousa Cavalcante, Universidade Federal do Pará

Bacharel em Direito na Universidade Federal do Pará.

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Publicado

2026-04-14

Como Citar

Tomaz, L., Miranda de Aquino, E. M., & Sousa Cavalcante, M. V. (2026). Advogar é também cuidar? Advocacia em casos de violência no Brasil a partir da experiência da Clínica de Atenção à Violência. Revista Jurídica Da FA7, 22(2), 41–67. Recuperado de https://periodicos.uni7.edu.br/index.php/revistajuridica/article/view/1847